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Crer, Torcer, Distorcer

| segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
- por Hilário Franco Júnior

Seguir determinado clube é acreditar, mesmo contra evidências racionais, que ele vá vencer. Como o futebol é jogo de muitos erros (sessenta passes errados numa partida é algo comum no Brasil) e pouca pontuação (mais de três gols em uma partida não é frequente), mantém o torcedor em constante expectativa. Impotente na arquibancada, o adepto de um clube crê que sua fé e seu estímulo possam colaborar para que seus ídolos levem a divindade comum à vitória. É significativo em português o uso da palavra "torcer" para designar o ato de manifestar adesão entusiasmada à trajetória esportiva de um clube. Conta-se que a origem da acepção futebolística do termo vem do hábito de moças simpatizantes do Fluminense contorcerem durante as partidas pequenas fitas roxas, semelhantes às usadas na cintura pelo goleiro do clube nos anos 1914-22, Marcos Carneiro de Mendonça. De toda forma, uma das acepções dicionarizadas de "torcer" é "desvirtuar o significado ou a proporção real de algo". No mundo do futebol, é interpretar os fatos segundo a emoção.Torcer é sempre distorcer, portanto.
É possível entrever o significado do futebol para cada povo por meio das palavras que expressam o ato de apoiar o time escolhido. Análise que pode ensinar muitas coisas, desde que não esqueça que a intensidade do sentimento religioso é muito pessoal, e no caso do futebol proporcional à paixão clubística. Para o fanático fluminense Nelson Rodrigues, 'o que nós procuramos no futebol é o sofrimento. As partidas que ficam, que se tornam históricas, são as que doem na carne, na alma'. É isso que faz algumas vezes a passio do fiel ser transferida para o oficiante. É comum, como se sabe, um jogador durante certo tempo encarnar o clube, ser a figura mais representativa dele, por isso adorada, e em outros momentos ser rejeitada, vaiada, xingada, fisicamente agredida. Fenômeno semelhante ao da religiosidade popular convencional. A imagem de um santo é reverenciada enquanto o devoto acredita que ela atende seus pedidos, porém é colocada de ponta-cabeça, escondida, quebrada, quando não mais satisfaz as expectativas que se depositam nela.
Se as torcidas cantam, agitam bandeiras, gritam slogans, antes que seus times entrem em campo, é porque se exibem para si mesmas, incentivam a si próprias, tentam intimidar as outras. Não é por impropriedade discursiva que se diz que "meu" time ganhou do "seu", que "meu" Deus é superior a todos os outros. Os pronomes possessivos revelam aí profundo sentimento de identificação, seja com a divindade clubística, seja com a divindade convencional. Em última análise, todo adepto do futebol torce para si próprio devido a uma identificação com o clube tão enraizada quanto a de qualquer outro fiel que encontro no seu Deus a si mesmo. A distorção egocêntrica está presente nos dois casos e pode atingir dimensões paranóicas, dependendo das circunstâncias nas quais tal sentimento é exteriorizado.
De fato, futebol não é sistema religiosos autônomo e coerente de representações, crenças e práticas, é antes mosaico constituído de peças de variadas procedências. Ele não propõe uma visão transcendental do mundo, um futuro melhor a seus seguidores. Isso é impossível, pois a vitória ininterrupta de um deus provocaria a extinção dos outros e, por conseguinte, a do próprio vencedor. Deseja-se a destruição do rival, mas precisa-se dele para que a existência da própria divindade adotada tenha sentido.
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Estranho Mundo - Parte Dois

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Perdeu alguma coisa? Parte Um
No exato instante em que o barulho do despertador acordava Patrick para aquele que seria o dia mais importante de sua vida, há algumas quadras daquele lugar uma garota chamada Eleanor, que dormia sobre uma escrivaninha amparada sobre as páginas de 'Admirável Mundo Novo', recebia as lambidas de Ringo, um gato da raça chartreux, anunciando que um novo dia estava a caminho. Eleanor era uma menina franzina, com o cabelo na altura dos ombros e um olhar perdido e solitário. Ao acordar com aquela sensação gelada lambendo o seu queixo pode ainda contar alguns segundos antes que seu rádio relógio explodisse ecoando 'Good Morning, Good Morning', dos Beatles, pelo quarto inteiro.
Eleanor é uma menina solitária, dessas que andam sozinhas pelas ruas abraçadas a livros escritos por gente que já morreu há muito tempo. Seus pais são separados e ela é criada pela avó. Não tem amigos, conversa pouco. Às vezes passa dias inteiros sem trocar uma palavra com ninguém. Ringo é seu único companheiro, um gato discreto com um sorriso encantador. Eleanor o havia encontrado tempos atrás em frente a uma loja de discos no centro da cidade. Ringo parecia esperar por ela. A menina saiu da loja agarrada a 'Yellow Submarine' em uma das mãos e o gato a seguiu até o caminho de casa.
A noite anterior havia sido preenchida pela leitura daquele livro que falava de um mundo novo, que já não era tão novo assim. Aldous Huxley era uma das figuras que estampavam a capa de 'Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band' e só esse feito já seria necessário para que Eleanor se interessasse por toda sua obra. Ao acordar naquela manhã, ainda contando os segundos para mais uma explosão de seu despertador, Eleanor pode perceber que o gato lhe chamava a atenção para um calendário a poucos centímetros do seu nariz. Aquele era dia dez de abril, fatídico dia que os quatro rapazes de Liverpool decidiram ir cada um pro seu canto há alguns anos atrás, e dia do seu aniversário.
Eleanor fechou os olhos por alguns instantes tentando absorver aquela informação. Estava completando dezessete anos de idade. Nos últimos anos para comemorar sua avó fazia um bolo de cenoura e comprava uma coca cola dois litros. Naquele dia ninguém lhe telefonava, não havia 'parabéns pra você', não havia presentes. Sua avó sentava num canto da mesa e enquanto mordia aquele bolo sem gosto de nada com sua dentadura, assistia a um desses programas do mundo das celebridades que passam na televisão. O aniversário acabava e a coca cola ainda estava pela metade.
O despertador tocou e Eleanor saltou da cadeira com uma estranha sensação de que aquele dia seria diferente dos demais. Se abraçou a Ringo agradecendo a lembrança do aniversário, que tratou de ronronar fechando os olhos, e arrumou sua mochila a tempo de ir à escola. Eleanor estava feliz. Pedalava a todo vapor pelas ruas da cidade cantando 'Here Comes the Sun', com aquele pressentimento confuso de alegria. Era uma menina de dezessete anos, quase uma mulher. ainda tinha dentro de si uma vontade absurda de fazer um monte de coisa e aquele seria o primeiro dia do resto da sua vida. Enfim, o sol viria.
De repente já no portão da escola, pedalando e cantando completamente desligada do mundo ao seu redor, Eleanor não pode perceber a presença daquele menino estranho que caminhava em passos largos bem à frente de sua bicicleta. Numa fração de segundos, num daqueles momentos mágicos que ficam guardados na memória da gente até o dia da nossa morte, Eleanor havia atropelado Patrick e aqueles dois sujeitos desconhecidos estavam jogados no chão um sobre o outro. A menina, ao sentir a presença de Patrick grudado ao seu corpo, ainda teve forças pra cantar bem baixinho no seu ouvido:
- Here comes the sun, and i say it's all right!
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Mr. A-Z

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No dia 13 de maio de 2008, dia do meu aniversário de vinte e um anos, um americano nascido na virgínia chamado Jason Thomas Mraz lançaria um album que figuraria, dentro do meu universo, como um dos maiores da década.
'We sing. We dance. We steal things' já vendeu quase um milhão de cópias pelo mundo. O título do álbum viria de uma peça do artista plástico David Shrigley, que Mraz conheceria em uma viagem à Escócia e que viria a ser o responsável pela capa de seu disco.
"I'm yours", sua primeira música de trabalho, figurou praticamente o ano inteiro entre o Top 10 da Bilboard Magazine (foi a música mais tocada do ano nos Estados Unidos, na Alemanha, na Itália, na Argentina, na Noruega, na Nova Zelândia, na Suécia e na Áustria) e ainda ganharia o Grammy Awards na categoria 'Música do Ano'.
Depois de ter passado quatro anos do lançamento de seu primeiro álbum ('Waiting for my Rocket to Come'), com hits como "You & I Both" e "Remedy (I Won’t Worry)", e de logo em seguida ter lançado seu segundo álbum ('Mr. A-Z'), que deu continuidade ao sucesso do primeiro, com novos hits e uma indicação ao Grammy Awards, Mraz decidiu parar. Queria cuidar do seu gato e do seu jardim, queria poder voltar a andar nas ruas, lavar sua roupa, fazer compras no supermercado, queria voltar a fazer coisas simples. E após uma interminável pausa de um ano na carreira, longe dos estúdios, dos palcos e dos programas de televisão, Mraz despertaria para redescobrir sua música.
- De repente eu acordei e músicas de verdade começaram a brotar de mim. Músicas que eu não tinha planos de compor. Mas isso acabou se tornando uma reflexão de como me sinto, do humor em que estava e desses despertamentos que eu estava tendo. Por esses momentos de auto-realização, auto-poder e auto-aperfeiçoamento, fiquei feliz em poder fazer um álbum ao mesmo tempo em que estava voltando ao planeta terra.
O disco ainda ganharia as participações especiais de Colbie Caillat (na canção "Lucky", feita pelos dois) e de James Morrison em "Details in the Fabric" (cantor britânico que despertou no nosso cenário com seu primeiro Hit pouco tempo atrás, "You Give Me Something").
'We sing. We dance. We steal things' é impecável do início ao fim; da primeira letra da primeira música, aos arranjos, os solos dos metais, na voz de Jason, na composição de suas músicas, e na leveza com que carrega uma obra que viria a ser o grande álbum de sua curta carreira, e que iluminaria o meu playlist musical por um bom tempo.
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Bus Driver

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- por Gay Talese

Os 10 mil motoristas de ônibus de Nova York enfrentam todo dia o pior trânsito do mundo, ao mesmo tempo que são insultados por velhinhas, enganados por estudantes, fechados por táxis e obstruídos por caminhões; tudo isso enquanto dirigem com uma mão e dão o troco com a outra, entregam bilhetes de baldeação, respondem perguntas, se apressam para pegar o sinal verde, procuram cumprir o horário, evitam os buracos da companhia de eletricidade, pedem aos passageiros que se dirijam para o fundo do ônibus, ouvindo o contínuo tilintar da campanhia de parar e sofrendo de dor nas costas, úlceras, hemorróidas ou um desejo quase incontrolável de enfiar o ônibus num muro de pedra e sair andando. Apesar de todo esse tormento e labuta, o motorista de ônibus de Nova York continua a ser, em grande medida, uma pessoa anônima que passa a vida mostrando apenas metade do rosto no retrovisor. Ele nunca terá o prestígio dos motoristas dos vistosos Greyhound, que usam quepe e disparam feito pilotos, ou dos motoristas de ônibus de subúrbio, que são chamados pelo nome pelos passageiros e ganham presentes no Natal; ou ainda dos motoristas de ônibus de excursão, que levam as pessoas a piquiniques e em geral são convidados a participar; tampouco dos motoristas de ônibus escolares, que eventualmente podem bater num passageiro barulhento e não sofrer nenhuma punição, se o departamento de Educação local não for progressista demais. O motorista de ônibus de Nova York é subestimado. Quando levanta os olhos para o retrovisor, ele ve a multidão dos que pegam quinze centavos e o ignoram. Ele os ve olhando através da janela, olhando para os próprios pés ou tentando ler o jornal de outras pessoas. Ele ve um boy desgrenhado apertando os olhos para ler um envelope pardo, uma senhora gorda segurando a sacola de compras enquanto disputa com um homem o único lugar vazio no ônibus. Ve passageiros de pé, pendurados nas alças como quartos de boi no açougue, e os odeia porque se recusam a sair do lugar quando ele pede pela enésima vez: “Um passinho à frente, por favor, tem bastante lugar no fundo do ônibus.” Os passageiros o ignoram, e continuarão a ignorá-lo até o momento em que ele perturbe a paz deles - ao dar uma freada brusca, ao deixar de responder uma pergunta ou de parar num ponto quando eles tocam o sinal. Dia após dia os motoristas padecem dessa rotina interminável, sabendo o que esperar - e quando - dos 3 milhões de nova-iorquinos que andam de ônibus a cada dia da semana. Às seis da manhã, por exemplo, os motoristas de ônibus pegam telefonistas, enfermeiras, empregradas domésticas, empregados de hotel; depois deles, às sete horas, é a vez dos comerciários, estivadores, ascensoristas e uma infinidade de outros leitores da imprensa marrom que entram no serviço antes das oito. Durante essas horas ouve-se o ruído ininterrupto de moedas tilintando dentro da caixinha de dinheiro, porque esses passageiros das primeiras horas, que também pertencem à classe trabalhadora, procuram facilitar a vida do motorista trazendo a quantia exata da tarifa. O trabalho do motorista de ônibus só começa a ficar desagradável às oito da manhã, quando os estudantes, livros debaixo do braço, começam a entrar, abrindo caminho a cotoveladas. Às nove da manhã, o ônibus fica repleto de secretárias, de recepcionistas e de perfume. Às dez, as secretárias executivas (que trabalharão até as seis) e funcionários de escritórios que ainda não se podem dar ao luxo de andar de táxi, e também as primeiras vagas da maior bête noire dos motoristas de ônibus - as senhoras que vão às compras.”A senhora que vai às compras pode estar com a bolsa tilintando, cheia de moedas, mas me dá uma nota de cinco dólares”, diz Barney O’Leary, que começou como motorneiro em Nova York, há 34 anos, e parece ter acabado de sair de O Delator. “Ou então ela está com uma amiga e diz: ‘Pode deixar, Sophie, eu tenho’. Aí ela põe a luva na boca e começa a procurar moedas - enquanto todo mundo espera do lado de fora, na chuva.” “Quando chego num ponto cheio de gente”, continua ele, “a primeira fila é invariavelmente uma mulher carregada de compras. Quando entra no ônibus ela põe os embrulhos no chão, fica remechendo na bolsa e, depois que lhe dou o troco, me pede um bilhete de baldeação de três centavos. Assim, tenho que arranjar troco pra ela duas vezes! Claro que quando pede o bilhete de transferência ela sussurra, a gente mal pode ouvir, mas quando ela xinga, o ônibus inteiro ouve.”"Essas mulheres são tão más”, acrescenta ele, “que em Nova York os homens não lhe dão mais lugares. Eles sempre se sentam no fundo do ônibus e fingem que não estão vendo as senhoras no pé do corredor. Ou então enfiam a cara em jornais, tiram um pedaço de papel do bolso e fingem estar ocupados em escrever coisas importantíssimas. Muitas vezes os homens ficam tão preocupados em manter o assento que deixam o ponto passar.” Para os motoristas que conseguem aguentar o tranco, o trabalho dá uma certa segurança e um salário médio próximo de 120 dólares por semana, incluíndo as horas extras. Os motoristas percorrem cerca de 97 quilometros durante o expediente de oito horas e arrecadam perto de cem dólares em passagens, e tem de prestar contas de cada centavo. Embora existam homens obstinados como Barney O’Leary, que conseguem passar a vida inteira insistindo para que as pessoas passem para o fundo do ônibus, outros há que dão um basta depois de dez ou quinze anos. Esses motoristas trocam de profissão e passam a trabalhar nas viações como mecânicos ou encarregados de manutenção, por exemplo, e muitos deles ficam muito satisfeitos, e até simpáticos - ali, longe da multidão enlouquecedora e do barulho da campainha, longe dos engarrafamentos e das cartas de reclamação, longe das arrogantes freguesas de lojas que, por quinze centavos, pensam poder controlar o destino de um motorista de ônibus.
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O Escafandro e a Borboleta

| sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
(Le Scaphandre et le Papillon - França) de Julian Schnabel, 2007. IMDB - 8.1
Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sydow.

- Recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.
- Ganhou 2 Globos de Ouro, nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro. Foi ainda indicado na categoria de Melhor Roteiro.
- Ganhou o BAFTA de Melhor Roteiro Adaptado, além de ser indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
- Recebeu 7 indicações ao César, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Mathieu Amalric), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Fotografia e Melhor Som.

Em 1995 Jean-Dominic Bauby, então editor-chefe da revista francesa de moda Elle, sofreu um derrame que lhe deixou em estado vegetativo. Paralisado dos pés a cabeça graças a rara síndrome do encarceramento, Bauby estava aprisionado ao seu próprio corpo. Incapaz de pronunciar uma única palavra, mas com sua consciência intacta, o personagem vivido por Mathieu Amalric aprende a desenvolver com a ajuda de uma fonoterapeuta uma maneira peculiar de se comunicar com o mundo e as pessoas à sua volta - piscando o olho esquerdo, único órgão com mobilidade sobrevivente da emboscada suicída causada por seu corpo. Dessa maneira Bauby consegue estabelecer uma conexão para registrar suas sensações em um livro. Para isso precisaria ditar letra por letra piscando na presença de uma "tradutora". O resultado disso seria a publicação do livro O Escafandro e a Borboleta, dois anos após seu derrame, aclamado pela crítica e pelo público. Bauby morreria dez dias após a publicação de seu livro.
O nova iorquino Julian Schnabel, diretor de Antes do Anoitecer (cinebiografia do poeta cubano Reinaldo Arenas), carrega o filme com leveza, transportando o telespectador para os olhos (e os pontos de vista) de um homem enterrado vivo numa cadeira de rodas. O trabalho lhe rendeu uma indicação ao Oscar e uma estatueta no Globo de Ouro como melhor diretor. Schnabel, que estava há sete anos longe das filmagens, nos conta uma história sobre a força do espírito humano. Ainda que seu personagem parecesse aprisionado por um escafandro - uma armadura de borracha e ferro usada por mergulhadores para trabalhos no fundo do mar -, através da sua consciência e da sua imaginação Bauby era um homem livre como uma borboleta, poderia estar aonde quisesse, sem pudores para dizer o que quer que fosse; desse modo (e só desse modo) a vida consegue ser mais fácil.
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K-Os e a Revolução Musical

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A primeira vez que ouvi esse cara eu tava dentro de um carro e tudo parecia bem devagar - tipo slow motion, saca? -, as pessoas na calçada caminhavam sem pressa, sem direção. Não havia buzinas, carros desgovernados, sirene de ambulância, nada. Eu poderia apostar que pelo menos naquele instante o mundo estava em um silêncio absoluto, se não fosse pela música contagiante que tocava no rádio; se não fosse por K-Os.
É, isso mesmo. O céu parecia se rasgar lá no alto graças a essas três letrinhas que parecem ter saído de alguma nave intergalática de Jornada nas Estrelas e que iriam revolucionar a minha maneira de enxergar a música.
K-Os é um rapper canadense que resgatou tudo aquilo que já havia sido feito na black music - do soul ao r&b -, bateu num liquidificador, acrescentou seus próprios ingredientes e saiu com seu microfone pelo mundo afora. Seus discos são, a meu ponto de vista, as maiores realizações da cultura pop dos últimos anos, e poderia dizer que K-Os está para a black music assim como Beethoven esteve para a música clássica e os Beatles estiveram para o rock n'roll.
Seu visual personifica a nova imagem da cultura de rua, sem o esteriótipo da periferia norte-americana, sem carrões importados, sem mulheres rebolando, sem calças largas, sem exageros. K-Os dignifica o hip-hop. Suas músicas são recheadas com violinos, pianos, bongôs, pickup's, vocais, saxofones e seguem a fórmula sagrada do pop - um ritmo envolvente, refrões que ficam marcados e solos curtos.
Nesse exato instante a revolução musical está acontecendo em algum lugar do mundo. A cada vez que K-Os tocar num player, a cada vez que um disco seu for ouvido pela primeira vez, sua música se transformará numa grandiosa epopéia - uma viagem para o universo musical, dessas que rasgam o céu lá no alto e deixam o tempo mais devagar, parecendo slow motion.


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Estranho Mundo - Parte Um

| quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Acordou com aquela cara amassada de sono. O lençol agarrado a uma das pernas e o despertador gritando ao lado do ouvido. Todo dia era a mesma coisa - Patrick derrubava aquele relógio estúpido no chão e ainda resmungando aproveitava cada segundo de sono que lhe restasse até que sua mãe, uma luterana gorda de um metro e noventa, invadisse o seu quarto berrando para que ele se arrumasse a tempo de ir à escola. Patrick estava cansado daquilo.
Ainda assustado com a força daquela voz taquara rachada, que ecoaria pelo seu tímpano até o caminho do colégio, Patrick se levanta esticando o braço na direção de um óculos fundo de garrafa que adormecia sobre a cômoda, e caminha em passos lentos rumo ao banheiro xingando mentalmente aquela velha parada em frente a porta de seu quarto com todos os palavrões que conhecia e que eram proibidos de serem ditos dentro daquela casa.
Patrick era um menino de dezesseis anos. Magrelo, com algumas espinhas pela cara, as canelas finas, aparelho nos dentes, o cabelo ruivo despenteado, um óculos que lhe tomava metade do rosto e um ar de fragilidade e insegurança. Ainda não havia sequer beijado nenhuma garota, embora fosse secretamente apaixonado por umas três ou quatro - dentre essas uma vizinha loira que Patrick espiava trocar de roupa da janela de seu quarto, enquanto se masturbava cheirando uma de suas calcinhas, roubada de seu varal numa tarde de domingo. Embora atraísse gente esquisita pro seu lado Patrick não tinha muitos amigos, passava a maior parte do tempo lendo história em quadrinhos e sonhando acordado.
Dentro do ônibus ficava admirando as construções dos prédios enquanto era levado à escola, onde poderia estudar matemática e um dia, quem sabe, construir prédios tão grandes e luxuosos quanto aqueles do centro da cidade. Patrick não gostava muito de cálculos e passava boa parte daquela aula admirando as curvas assimétricas de sua professora. Na verdade ele não se interessava por quase nenhuma daquelas matérias, eram todas tão chatas e pareciam ter tão pouca utilidade em sua vida que Patrick comumente confundia os catetos com os quadrados de qualquer hipotenusa que lhe surgisse pela frente, não sabendo se isso lhe dizia respeito a matemática ou qualquer outra matéria.
Senão bastasse aqueles hormônios todos circulando em rota de colisão pelo seu corpo e as meninas que faziam de conta que ele nunca existiu, embora andassem rebolando a meio metro de seus olhos, senão bastasse sua mãe lhe encomodando desde logo cedo e todas aquelas matérias insuportáveis ao qual era obrigado a ouvir na escola, Patrick agora estava naquela época de decisão. O tempo corria e ele deveria optar pelo quê fazer com sua vida. Ainda criança sonhava em ser um monte de coisa - bombeiro, cientista, piloto de avião, médico, inventor, apresentador de tv -, e agora com quase dezessete anos e um mundo inteiro pela frente Patrick estava sem grandes opções, e enquanto pensava a respeito tratava de descer no ponto de ônibus em frente a escola ainda com aquela voz taquara rachada martelando bem baixinho o seu ouvido. Caminhando com a mochila nas costas, cercado por pontos de interrogação por todos os lados, Patrick mal poderia imaginar que aquele seria o dia mais importante de sua vida.